terça-feira, 23 de junho de 2009

O processo criativo nas produções de vídeo, TV ou cinema

Análise usando o livro:
On Camera – O curso de produção de filme e vídeo da BBC (Harris Watts)

Ao se pensar em imagem, uma série de fórmulas podem ser aplicadas ao processo de produção para que as idéias sejam conduzidas com estrutura e criatividade, atingindo o objetivo do diretor para que sua obra seja reconhecida e seu público-alvo atingido, distanciando-os do fracasso. As fórmulas provem de boas idéias, senão não seriam utilizadas até a exaustão, como acontece. Por isso, elas devem ser sempre aperfeiçoadas e alternativas buscadas para que o processo criativo não caia no comum e seja atraente e informativo aos olhos do telespectador.
Seja na televisão, cinema ou vídeo, o modo de se pensar em produzir se inicia da mesma forma, as fórmulas estruturais se aplicam aos três modos de se fazer imagem. O que os diferencia é basicamente o público-alvo, forma de transmissão e captação.

“Não haveria mesmo razão para a separação entre TV e vídeo em campos de atuação tão distintos. A rigor, os termos vídeo e televisão podem ser aplicados a uma mesma tecnologia, à exploração de um mesmo meio para a produção e difusão de imagens eletrônicas. A diferença entre o vídeo e a TV está, essencialmente, na sua proposta ético-estética. (...) Ainda hoje o vídeo é tratado por muitos críticos e realizadores como uma espécie de contratelevisão, ou, quando muito é associado a reinvenção da sua linguagem, à idéia de qualquer experimentalismo envolvendo seu aparato.” In: Made in Brasil, Arlindo Machado. p. 87, São Paulo, SENAC.

Nesta espécie de manual, Harris Watts descreve inúmeras ações para que as idéias sejam levadas a diante e, além disso, caiam no gosto do público. Uma delas é produzir coisas que sejam interessantes para quem o faz, a especialidade existe para garantir maior êxito junto com mais experiência, a fim de explorar temas. Os fatos inéditos e curiosidades tendem a chamar mais atenção e, o mais importante, deve-se sempre manter um arquivo de idéias.
A pesquisa é o aspecto mais importante nesse processo criativo e é nela que a equipe tem noção da dimensão de abordagem do tema a ser explorado, define as possibilidades e pontos importantes que vão entrar na produção além de reconhecer o material a ser utilizado. Aqui também pode-se começar a pensar no áudio da obra, tão importante quanto as idéias, já ajuda a formatar o projeto e delinear características também.
O vídeo nos dá uma série de alternativas técnicas para que possamos utilizar e explorar novas, fazendo experimentações em cima das já existentes. Talvez esteja ai o segredo de grandes sucessos. Podemos aumentar nossos conhecimentos técnicos assistindo a outras obras para ver como outras pessoas trabalham e a partir delas adaptar novas técnicas e até mesmo inventar novas.
O tempo de pré-produção, onde esta série de levantamento de dados é feita e idéias de técnicas a serem utilizadas, depende do tamanho da obra completa. Em um longa-metragem pode durar meses, assim como em um programa de TV, mas um vídeo com algum tema específico e de duração limitada pode durar uma semana, tudo depende do processo de pesquisa e se ela respondeu as perguntas e dúvidas sobre o tema a se produzir.
Após isso pode-se começar a pensar em roteiro, onde as idéias são colocadas no papel no formato de anotações, imagens a esquerda e som a direita. Dessa forma a organização da pesquisa feita já se torna mais próxima a concretização do projeto, verifica-se se as idéias funcionam, se foi planejado o número ideal de imagens em cima da história a ser contada, se faltou alguma coisa ou se a produção já pode seguir para os próximos passos.
O mais importante na escrita do roteiro é a experiência que será adquirida para identificar pontos fortes e fracos que posteriormente a equipe poderá enfrentar ao executar o roteiro. Além disso, colocando as imagens no papel, pode-se deduzir o tempo estimado para cada cena e assim prevendo o tempo total de duração da obra.
Depois de revisto e muito bem estruturado, o roteiro também dá todas as outras noções relacionadas a produção e tempo de produção até o termino das gravações. É nele que identificamos os dias necessários para gravar e locais a serem visitados, usados ou produzidos para as gravações, assim como a ordem em que as cenas serão gravadas. Elas não precisam ser lineares como as seqüências do roteiro, quem dita a ordem de gravação é o tempo: economiza-se tempo gravando imagens de mesma locação juntas, por exemplo. Para que esse material não se perca e seja ordenado corretamente que utilizamos inúmeras técnicas e acessórios. A claquete é usada para marcar o ponto de sincronismo entre som e imagem e para identificar o rolo ou fita, a cena e o take por números.
Na edição do material são selecionadas as melhores cenas para a produção original e é por isso que deve-se gravar sempre a mais para que o diretor, junto ao editor, possa selecionar a tomada mais interessante, que cumpra com o objetivo do roteiro ou expectativa do diretor. É por isso também que um novo roteiro é feito a partir das imagens captadas, é feita uma lista das imagens e uma ordem de montagem, que não é necessariamente a mesma ordem do roteiro original.
O som deve ter a mesma importância e cuidado que as imagens recebem, na captação do som direto ele deve estar sincronizado com as imagens, além disso na edição podem ser acrescentados efeitos sonoros, locuções e até mesmo dublagens, caso algum som direto não tenha sido captado da forma correta ou haja algum erro na fala de algum ator ou apresentador.
É também nessa fase de pós-produção onde efeitos especiais ou grafismos podem ser adicionados, em sua maioria previamente pensados para que seu planejamento seja feito dentro do espaço adequado no roteiro ou na obra finalizada.
A partir desse esboço das partes que envolvem o processo criativo, tendo como referência o manual escrito por Harry Watts, podemos fazer uma análise sobre as tendências audiovisuais e suas implicações na arte e na sociedade. A responsabilidade que o artista tem hoje em dia vai além de transmitir informações, o profissional multimídia está cada vez mais completo e corresponde a um perfil novo, sem limitações de criatividade, podendo usar inúmeras ferramentas (áudio, vídeo, TV, cinema, internet, revistas, jornais, etc) e cada vez mais especializado.
“Estamos mergulhados numa cultura midiática em que os meios não são mais ferramentas, mas um conceito e um modo particular de cultura.” In: Galáxia, Vol. 2, Nº 4 (2002), Arlindo Machado.
O profissional que se depara com uma infinidade de possibilidades técnicas e criativas, deve proceder, de acordo com o manual aqui descrito, utilizando fórmulas e estruturando as idéias para que as mesmas não se percam e, além disso, sabendo das fórmulas já utilizadas, reciclando-as e criando novas opções para surpreender e entreter o telespectador. Às vezes um assunto já foi transmitido até a exaustão, mas descobrindo uma nova forma de demonstrá-lo pode se tornar algo muito interessante.
A convergência de mídias que atualmente acompanhamos só faz crescer cada vez mais o espaço para profissionais multimídia, caminhos que se abrem para novas tendências dizem respeito a mais possibilidades tecnológicas, isto é, a criatividade sendo alimentada por esse novo espaço que sugere a produção de temas antigos reciclados com novas técnicas assim como temas novos apresentados com antigas técnicas. O modo com que o profissional lida com essa nova tendência faz dele um artista notório nesse meio onde é muito mais fácil do que antigamente ter acesso a ferramentas e conteúdo, cabe a cada um inovar no modo de manipular esses conceitos para transmitir sua arte.
De todas as mídias citadas, a internet se destaca entre as outroas, hoje ela é capaz de arquivar todo e qualquer tipo de conteúdo para que o artista possa pensar e a partir disso fazer o caminho inverso, transmitindo suas idéias e criações através da mesma ferramenta. Dessa forma a comunicação com o resto do mundo se torna mais livre e ativa, encurtando a distância para a troca de conhecimento e a manifestação artística.


Referências bibliográficas:
On Camera – O curso de produção de filme e vídeo da BBC. Harris Watts. Summus Editorial, vol. 36, São Paulo.
Galáxia, Vol. 2, Nº 4 (2002), Arlindo Machado.
Made in Brasil, Arlindo Machado. p. 87, São Paulo, SENAC.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Sobre Síndrome da Realidade


texto de Lucas Bambozzi in: http://www.interfacescriticas.net/textos.php?text_id=16

Uma série de encontros na casa do cineasta Marcelo Masagão, deu origem a esse texto onde é discutida a "estética de realidade”, documental e um suposto impulso a isso em diversos campos. Além do que, reflete um período interessante da produção artística e cultural.

Existem dados estatísticos que confirmam esse tal impulso ou interesse extraordinário por filmes documentais e narrativas centradas na realidade. Além disso essa situação já foi detectada como um fenômeno em expansão.

A câmera de mão (handcam), associada a novas tecnologias de transmissão, tem oferecido um fluxo enorme de material onde o indivíduo comum que nunca esteve tão perto de se tornar um videomaker ou um fotógrafo.

Alguns filmes são exemplos de como é interessante para o espectador a proximidade com a realidade e sua oscilação, tornando as produções mais interessantes (Bruxa de Blair – 1997 e Aconteceu perto da sua casa - 1992).

Outro conceito importante de ressaltar é o documentário de busca, onde as situações são o próprio processo da experiência onde podemos acompanhar no filme de Kiko Goifman, 33. O real não é mais tido como espetáculo e sim como linguagem.

As noções mais atuais de intimidade, privacidade e realidade estão conectadas a uma série de circunstâncias e mecanismos, tanto culturais como tecnológicos.

A publicidade de apropriou a essa nova realidade estética e usa dessa intimidade para vender produtos que nada tem a ver com a intimidade, propriamente dita: sabão em pó, eletrodomésticos, etc.

O design também vem se apropriando há um certo tempo, se inspirando na autenticidade de coisas populares e espontâneas.

Os blogs são ferramentas para divulgar conteúdo jornalístico e literário, inspirado na banalidade da vida e das coisas comum, dá voz ao ponto de vista do “anônimo”.

No universo dos video games não há apenas a estética mas conceitos e situações da realidade que servem de base para múltiplos formatos de jogos: The Sims, GTA, entre outros.

Os reality shows são os melhores exemplos da busca do parecer real e da até ficção travestida de realidade.
Há uma constatação sobre a vontade de experimentar novas realidades, viver a vida do outro.

A publicidade volta a atacar com ações de marketing, realizando eventos ligados a portabilidade e usando slogans sobre a tecnologia substituindo a experiência.

Na produção artística contemporânea a “realidade documental” sugere inúmeros caminhos para se trabalhar.
Temos exemplos de vários grupos e projetos ligados ao audiovisual onde utilizam mecanismos de mediação e se confrontam com a realidade, são intervenções e trabalhos capazes de produzir conscientização sobre assuntos mais diversos (sérios ou não).

Estes trabalhos podem dizer o quanto a realidade tem trazido preocupação para arte e como ela responde a essa realidade.

A mídia é uma forma de contruir realidades, retrata um mundo não existente e como ela faz isso é uma outra questão.

Por fim, conclui-se que o imediato e o outro produzem interesse e estamos nos adaptando a novas tecnologias que alargam nossas fronteiras pessoais para além da zona de conforto.

Os instrumentos para isso podem ser chamados de interfaces onde haverá a mediação do indivíduo em espaços públicos compartilhados (realidade) e também poderão sugerir a conscientização. Mesclando contexto, mediação tecnológica e uso do espaço.

Vivenciamos agora uma nova indústria, que vende a realidade como consumo, como mercadoria.

Essa realidade documental disfarça o entendimento sobre o real ou o liberta?

*

Partindo dessa dúvida, temos que a realidade documental só pode ser processada a partir de ferramentas e técnicas par tal acontecimento. Neste processo a realidade “pura” se perde e dá lugar a realidade arquitetada, a partir de métodos e dispositivos para a concretização de um projeto/roteiro.

Não consigo identificar alguma obra inteiramente pura a não ser materiais brutos, que apesar do tipo de captação ter sido escolhida, tema e até mesmo posicionamento, pelo menos no trecho de sua gravação (sem cortes) não temos nenhum tipo de distorção da realidade.

Acredito que novas tecnologias aparecem para somar, amantes da tecnologia querem cada vez mais. Cabe a cada um de nós saber utilizá-las e saber até que ponto queremos ter nossas vidas íntimas escancaradas em prol da comunicação ou da experimentação dessa “realidade documentada”.


O documentário dispositivo: SUPER SIZE ME



Ficha técnica

Título Original: Super Size Me
Gênero: Documentário
Tempo de Duração: 98 minutos
Ano de Lançamento (EUA): 2004
Site Oficial: www.supersizeme.com
Estúdio: The Con
Distribuição: Samuel Goldwyn Films / Imagem Filmes
Direção: Morgan Spurlock
Roteiro: Morgan Spurlock
Produção: Morgan Spurlock
Música: Steve Horowitz e Michael Parrish
Direção de Arte: Joe the Artist
Edição: Stela Georgieva e Julie Bob Lombardi
Efeitos Especiais: PIXAN.com

Elenco:
Morgan Spurlock
Daryl Isaacs

Premiações:
• Recebeu uma indicação ao Oscar de Melhor Documentário.
• Ganhou o prêmio de Melhor Diretor - Documentário, no Sundance Film Festival.

Sinopse:
O diretor Morgan Spurlock investiga a cultura de fast-foods americana através de sua própria experiência.
Ele critica a sociedade e as empresas alimentícias, mobilizando uma equipe de médicos (um cardiologista, um gastroenterologista, e um clínico geral, assim como uma nutricionista e um preparador físico) para acompanhá-lo nesses 30 dias onde só poderá se alimentar de produtos do Mc Donald´s (incluindo água), três vezes ao dia.
Por trás do foco do documentário onde mostra os efeitos físicos e mentais em si mesmo que este tipo de alimentação provoca, o diretor usa de outros recursos para validar sua acusação: o Mc Donald´s vende alimentos que consumidos em excesso fazem mal a saúde e, podendo minimizar seu efeito, oferecem porções de tamanho muito acima do padrão, vendidos por preços acessíveis. Dessa forma influenciam diretamente na cultura e no aumento de peso da população.

Narrativa:
O roteiro do documentário foi construído a partir de uma análise da cultura fast-food norte-americana. A partir de pesquisas, Spurlock mostra os principais estados norte-americanos com altos índices de obesidade e transforma esses estados em pano de fundo para discorrer todas as suas críticas.
O deboche está muito presente também, é uma forma de demonstrar a verdade com imparcialidade, mesmo esta imparcialidade sendo imaginária porque na própria edição e elaboração de perguntas a veracidade dá lugar para a indução.
Ele faz visitas a escolas e conversa com pessoas obesas para que elas mesmas mostrem os efeitos que o Mc Donald´s tem em suas vidas, elas dizem o quanto gostam, quantas vezes se alimentam lá por semana, tem as músicas das propagandas decoradas, a identificação de um público muito jovem com os personagens do restaurante, entre outros.
A visita as escolas é um ponto marcante do documentário, onde depois de apresentar toda a rotina da vida da maioria dos americanos, ele mostra que a sociedade está realmente dominada por essa cultura (self-service) e nas escolas, onde deveriam ensinar e mostrar uma alimentação saudável, ele se depara com lanches hipercalóricos, alimentos como pizza, refrigerante e hambúrgueres são os principais.
Por outro lado, ele também mostra os esforços de uma pequena parcela da população consciente sobre esses danos, que quer mudar essas estatísticas. O diretor visita uma escola que é o contrário das outras, oferecem comidas saudáveis e tem um programa de incentivo a prática de esportes e a alimentação saudável.
Além da presença de sua noiva, que assume papel de extrema importância no documentário, onde vira testemunha dos danos causados ao seu marido, como perda de energia e diminuição do desempenho sexual. Por ser vegetariana, não poderia ser mais perfeita como testemunha.

Aspectos:
Podemos citar os aspectos que o filme investiga para demonstrar e validar a acusação ao Mc Donald´s:
1. Em relação a sociedade, mostra que a cultura de massa que atinge a população através da publicidade, assim como o culto a beleza perfeita, transformam as pessoas, faz o indivíduo viver em um mundo irreal, querendo coisas fora de seu alcance e tornando-o uma pessoa frustrada.

"O espetáculo é a aparência que confere integridade e sentido a uma sociedade esfacelada e dividida. É a forma mais elaborada de uma sociedade que desenvolveu ao extremo o 'fetichismo da mercadoria' (felicidade identifica-se a consumo). Os meios de comunicação de massa - diz Debord - são apenas 'a manifestação superficial mais esmagadora da sociedade do espetáculo, que faz do indivíduo um ser infeliz, anônimo e solitário em meio à massa de consumidores´". (JUNIOR, José Arbex, 2001, Shownarlismo: a notícia como espetáculo)

2. As empresas de grande porte, no caso as alimentícias, visam o lucro em 1º lugar e esquecem de dar suporte a indivíduos que são atingidos pela cultura fast-food. Os recursos usados para o incentivo a uma alimentação saudável são maquiados e ficam em 2º plano, exemplificado no filme com a dificuldade em achar a tabela calórica dos produtos oferecidos. Assim como a salada que foi incorporada ao menu mas tem tantas calorias quanto um hambúrguer, sendo que o mesmo já excede as calorias recomendadas por um nutricionista para uma saudável.

“O que é dado não depende apenas da natureza, mas também do poder do homem sobre ele. Os objetos e a espécie de percepção, a formulação de questões e o sentido da resposta dão provas da atividade humana e do grau de seu poder." (Max Horkheimer, Filosofia e Teoria Crítica, 1968, em Textos Escolhidos, Coleção Os Pensadores, p. 163)

Dispositivos:
A proposta de se alimentar somente com Mc Donald´s, três vezes ao dia e com algumas regras faz do filme um documentário-dispositivo.
Sobre os dispositivos:
• Deve comer somente em McDonald's três vezes ao dia;
• Deverá escolher cada item no menu ao menos uma vez durante os 30 dias (atingiu o objetivo em nove dias);
• Não pode comer nada além dos itens do menu (incluindo água);
• O tamanho "Super Size" de sua refeição deverá ser escolhido sempre que for oferecido;
• Deve aceitar todas as promoções oferecidas para que ele compre mais comida que a intencionada inicialmente;
• Terá de caminhar a média que se caminha nos Estados Unidos (5000 passos ao dia) porém isto não era rígido, já que ele caminhou relativamente mais, em comparação do que se caminha em Nova York que em Houston (cidade mais “gorda” da América).

Sem isso não seria mostrado o posicionamento do diretor e sua acusação não seria válida. Tornando-se cobaia para demonstrar mais intimidade com o telespectador.

“A utilização de dispositivos de criação audiovisual é tanto mais eficiente quanto ela abre possibilidades de encontros entre corpos e objetos, criando efeitos que não podem ser sequer imaginados antes do dispositivo entrar em ação. É dessa criação de efeitos imponderáveis, de verdadeiros acontecimentos, que surge a invenção de mundos possíveis com esta prática audiovisual. Mundos que não se constituem como desdobramentos em profundidade do que já conhecemos, mas que são ampliações em extensão de possibilidades de cruzamentos de subjetividades e potências de invenção.” MIGLIORIN, Cezar. O dispositivo como estratégia narrativa.

Conclusão:
Antes do experimento, Spurlock, comia uma dieta variada e saudável, media 188 cm de altura e pesava 84,1 kg. Depois de trinta dias ganhou 11,1 kg, aumentando 13% de sua massa corporal. Também sentiu na pele mudanças de humor, disfunção sexual, e dano ao fígado.
Para recuperar os danos causados pela má alimentação ou pela “dieta do palhaço”, ele precisou de quatorze meses para perder o peso que havia ganhado.
O experimento veio de uma idéia de Spurlock ao assistir um noticiário onde duas garotas processariam o Mc Donald´s por danos a saúde delas, causados pela ingestão de Big Macs.
Por mais que os processos contra o Mc Donald´s tenham sido negados, como aconteceu, temos que a 1ª exibição de Super Size Me ocorreu em janeiro de 2004, no Sundance Film Festival (onde Spurlock ganhou o prêmio de melhor Diretor), dois meses depois a cadeia de lanchonetes McDonald's anunciou a retirada das porções "Super Size" do cardápio.
A empresa declarou que a mudança não ocorreu devido a repercussão do filme. Vai saber...



Bibliografia e Referências:
MIGLIORIN, Cezar. 2006. O dispositivo como estratégia narrativa. In Livro da XIV Compós - 2005: Narrativas Midiáticas Contemporâneas, ed. André Lemos, Christa Berger, and Marialva Barbosa, 82-94. Porto Alegre: Sulina.

DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Trad. Estela dos Santos Abreu. Rio de Janeiro: Editora Contraponto, 1997.

MATTELART, Armand e Michèle. História das teorias da comunicação. Trad. Luiz Paulo Rouanet. São Paulo: Edições Loyola, 1999.

José Aloise Bahias sobre Guy Debord - A Sociedade do espetáculo in:
http://www.revista.criterio.nom.br/debordaloise001.htm

http://pt.wikipedia.org/wiki/Teoria_Cr%C3%ADtica

http://pt.wikipedia.org/wiki/Super_Size_Me

http://www.adorocinema.com/filmes/super-size-me/super-size-me.asp

http://veja.abril.com.br/180804/p_114.html

http://www.terracotabolsas.com/rato/?cat=27

Estudo focado na semiótica e teorias da comunicação sobre Os Simpsons


Os Simpsons – crítica ou espetáculo?

Uma família americana composta por cinco integrantes e de personalidades singulares. Com um “chefe” de família, aqui colocado entre aspas pois seu personagem é o contrário do típico herói americano, com uma esposa exemplar (sem aspas) que remete aos padrões tradicionais de dona-de-casa, uma filha prodígio que sofre com os problemas ocorridos na cidade onde mora e dentro de sua casa, um filho problemático e que ilustra a falta de escrúpulos em uma criança de sua idade e por fim o bebê que é uma criança super-dotada que não é reconhecida por todos.

As características descritas acima envolvem conceitos e idéias que se processam natural e culturalmente. A semiótica estuda como esses mecanismos de significação se dão, em qualquer sistema de signos, como por exemplo: artes visuais, música, fotografia, cinema, moda, gestos, religião, entre outros.

Segundo Pierce, o pai da semiótica americana, os signos podem se equivaler a circunstâncias, no caso temos que os episódios dos Simpsons trazem uma série de circunstâncias que podem ser analisadas e explicadas em uma estrutura de significação, onde aborda inúmeros temas, entre eles os mais polêmicos no formato de crítica (muitas vezes subversivas).

Os Simpsons vivem em uma cidade chamada Springfield, apresentada também por elementos que abordam temas como: religião, consumismo, homossexualismo, ética, corrupção, entre outros que formam uma narrativa única e preservam aspectos que podemos identificar em definições e estudos sobre teorias da comunicação, ideologias, cultura de massa, indústria cultural, capitalismo, globalização, entre outros. A preservação desses aspectos faz da série uma constante crítica muito bem humorada.

Apesar da atmosfera utópica criada pela imagem dos personagens (cor amarela, 4 dedos, tamanhos desproporcionais) as situações ocorridas são totalmente possíveis.

Temos que a massa, esse conjunto de indivíduos que habita Springfield, não distante da massa que assiste, são atingidos por uma realidade retratada através dos meios de comunicação. As várias teorias da comunicação tentam configurar esse processo de transmissão e recebimento de mensagem para analisar a conduta desse indivíduo diante da massa e da mídia.

Na Teoria de comunicação Hipodérmica, o indivíduo não apresenta resistências e assimila as informações se deixando manipular de forma passiva. Por outro lado, a teoria da comunicação de persuasão defende que o indivíduo filtra as informações através de processos psicológicos, que determinam essa resposta.

Outras teorias também se encaixam ao processo de entendimento sobre a recepção de informações dessa cultura de massa, como a teoria empírica que defende a mídia como mais um instrumento de persuasão na vida social, uma vez que ela faz parte do processo.

A Escola de Frankfurt traz a teoria crítica vinda das teorias Marxistas que investigam a produção midiática como um produto do capitalismo. E novamente voltamos a dúvida sobre o esforço do indivíduo de refletir e pensar sobre as obras antes de absorvê-la.

Além disso, lembrando um grande comunicólogo, Chacrinha, que disse: “Nada se cria, tudo se copia.” Nada mais fez do que uma adaptação de um conceito da Escola de Frankfurt sobre comunicação de massa, o de que as fórmulas que dão certo são repetidas à exaustão. No caso de Os Simpsons, por exemplo, podemos fazer uma analogia com a frase e dizer que nada se cria mas tudo se parodia.

Aliás é nessa escola que surge o termo indústria cultural que define o conceito da conversão da cultura em mercadoria. E traz a cultura pop mais a frente com conceitos de inovação, crítica do mundo e provocações.

A partir de uma análise sobre a teoria crítica, a teoria culturológica pesquisa os efeitos ou as funções da mídia, definindo a natureza da cultura das sociedades contemporâneas. Traz assim a definição mais cabível diante de todas essas análises e teorias: a cultura de massa não impõe padronização dos símbolos, mas utiliza a padronização desenvolvida espontaneamente pela imaginário popular.

A linguagem utilizada na série se apropria e subverte, abusando da retratação caricaturada para narrar acontecimentos verdadeiros ou divulgados pela mídia.

No episódio “O feitiço de Lisa”, de 2002, Matt Groening retrata um momento de grave crise social, decorrente em sua maior parte da crise do Plano Real. Nos deparamos com inúmeros problemas sociais que causam impacto de incômodo sobre o telespectador. A família Simpsons sofre um sequestro, são assaltados e assediados sexualmente nas ruas do Rio de Janeiro. Além disso, Homer Simpsom aparece em Copacabana usando uma camiseta do “Tio Sam” engolindo o mundo. A análise sobre a problemática da realidade brasileira é tida com a imagem de um país onde as pessoas convivem com bichos selvagens, badidagem, prostituição e sugere diversas vezes o atraso civilizatório a partir informações divulgadas pela própria mídia nacional, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso.

“A desvalorização do nacional não provém unicamente das culturas audiovisuais e das transformações que a tecnologia telemática produz nas identidades, senão da erosão interna que a liberação das diferenças produz, especialmente das regionais e das próprias, às gerações. Vista a partir da cultura planetária, a nacional parece provinciana e carregada de laços paternalistas.” (MARTIN-BARBERO, 2004, p. 43)

Os personagens e ambientes carregam com eles aspectos que nos aproximam da trama, ridicularizando ou tentando ridicularizar o telespectador por se identicar incoscientemente ou não com ações e comportamentos dos personagens. O Autor o faz utilizando referências tiradas dessa mesma sociedade criticada. Por outro lado, temos essas críticas muitas vezes não resolvidas, e sim apenas demonstradas como deboche, e isso muitas vezes não altera o caráter ou situação do criticado.

“O conceito de ideologia é, a partir do senso comum, um conjunto de idéias ou doutrinas e visões de mundo de um indivíduo ou de um grupo apontado para ações sociais e políticas, segundo Karl Marx pode ser considerada um instrumento de dominação que age através do convencimento, alienando a consciência humana e mascarando a realidade.” (Chauí, M. O que é ideologia. São Paulo: Brasiliense.)

As relações que a família Simpsons preserva entre si e com os demais moradores da cidade é a principal temática da série, através disso o autor Matt Groening gera conteúdo e usa a ambigüidade para direcionar a informação de acordo com o repertório e idade que o telespectador possa ter.

A partir desse conteúdo tanto na série como em outros formatos de artes visuais e meios de comunicação, o homem passa a ser e a viver uma vida sonhada e idealizada, onde a ficção mistura-se a realidade e vice-versa. A notícia caminha com a ficção e produz um entendimento fragmentado dos acontecimentos.

A imagem manipulada pelos meios de comunicação de massa cria uma realidade própria onde a sociedade se solidariza e cria novos critérios de julgamento e justiça conforme esses conceitos de manipulação.

"O espetáculo - diz Debord - consiste na multiplicação de ícones e imagens, principalmente através dos meios de comunicação de massa, mas também dos rituais políticos, religiosos e hábitos de consumo, de tudo aquilo que falta à vida real do homem comum: celebridades, atores, políticos, personalidades, gurus, mensagens publicitárias - tudo transmite uma sensação de permanente aventura, felicidade, grandiosidade e ousadia. O espetáculo é a aparência que confere integridade e sentido a uma sociedade esfacelada e dividida. É a forma mais elaborada de uma sociedade que desenvolveu ao extremo o 'fetichismo da mercadoria' (felicidade identifica-se a consumo). Os meios de comunicação de massa - diz Debord - são apenas 'a manifestação superficial mais esmagadora da sociedade do espetáculo, que faz do indivíduo um ser infeliz, anônimo e solitário em meio à massa de consumidores´". (JUNIOR, José Arbex, 2001, Shownarlismo: a notícia como espetáculo)

A mídia atua de maneira decisiva nos temas que norteiam o processo cultural e social. O homem se torna governado por algo que ele próprio criou. Para McLuhan, “a mensagem de qualquer meio ou tecnologia é a mudança de escala, cadência ou padrão que esse meio ou tecnologia introduz nas coisas humanas”.

Bibliografia:

CHALUB, Samira. Funções da Linguagem. São Paulo, Editora Ática, 2002.

MATTELART, Armand e Michèle. História das teorias da comunicação. Trad. Luiz Paulo Rouanet. São Paulo: Edições Loyola, 1999.

GALBRAITH, John Kenneth. A natureza da pobreza das massas. Trad. Oswaldo Barreto e Silva. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1979.

DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Trad. Estela dos Santos Abreu. Rio de Janeiro: Editora Contraponto, 1997.

Textos e sites utilizados pela internet:

Bahias, José Aloise. Dossiê Guy Debord. Revista Critério, S/d. http://www.revista.criterio.nom.br/debordaloise001.htm

OLIVEIRA, Ivan Carlo Andrade. Teorias da Comunicação. Virtual Books Online M&M Editores Ltda., 2003.
http://www.scribd.com/doc/6811278/Ivan-Carlo-Andrade-de-Oliveira-TEORIAS-DA-COMUNICAO

Versori, William Eugênio e Zilda Ferreira Leandro. OS SIMPSONS: UM ESTUDO DE PERCEPÇÃO, S/d.
http://www.dpi.uem.br/Anais/arquivos/tc/OS%20SIMPSONS.pdf

Pietroforte, Antonio Vicente Seraphim. Uma abordagem semiótica do humor no desenho animado, S/d.
http://www.gel.org.br/estudoslinguisticos/edicoesanteriores/4publica-estudos-2005/4publica-estudos-2005-pdfs/uma-abordagem-semiotica-1150.pdf?SQMSESSID=a38ffc79c82bcbe561e1c641326fd16c

HQ Coisa - Maio de 2007- Lostinho. Lost... da Mônica, S/d.
http://hq.cosmo.com.br/textos/hqcoisa/h0176_lostinho.htm

http://pt.wikipedia.org/

Brainstorming em rede!

Vou tentar organizar melhor as idéias para poder descobrir meu tema do projeto final para o curso de pós-graduação em Criação de Imagem e Som em Meios Eletrônicos (ou Mídias Emergentes) - SENAC 2009.